Por que existem poucas mulheres na animação, e o que nós podemos fazer?

Palavras de Jenny Brewer , quinta-feira, 8 de março, 2018,
Traduzido por Nathalia Okimoto, quarta-feira 16 de janeiro, 2019.

Onde estão as mulheres? Esta é uma questão que vira e mexe aparece nas rodas de conversa entre os profissionais de animação. De acordo com o grupo de apoio “Women in Animation”, 60% dos estudantes de animação do Estados Unidos e da Europa são mulheres, mas a taxa de desistência à medida que avançam para a indústria é impressionante, com apenas 20% a 40% dos cargos profissionais ocupados por mulheres.

Mas porque, exatamente, existe um rombo no número de mulheres na animação e, mais efetivamente, o que o mercado está fazendo sobre essa questão? Para desvendar esse mistério, nós conversamos com uma variedade de importantes vozes na área: estúdios de animação, educadores e animadoras mulheres, por elas mesmas (sim, elas existem), sobre experiências e ações que estão sendo tomadas para equilibrar o cenário atual.

Clube do bolinha
Ficou claro que uma das principais barreiras é a transição da educação para o mercado. A diretora de animação e vencedora do Bafta, Nina Gantz, diz que presenciou um equilíbrio na faculdade e até mesmo no circuito de filmes independentes, mas quando chega ao mundo comercial, torna-se dominado pelos homens. “Talvez seja por ser um pouco panelinha dos caras “, diz ela, “poderia ser o motivo pelo qual é menos convidativo para as mulheres entrarem e permanecerem. Eu achei intimidante no começo.” A parceira Anna Ginsburg, diretora de animação, diz a mesma coisa, referindo-se a um “clube do bolinha” com “muita testosterona voando no ar”. A diretora de animação Niki Lindroth von Bahr coloca isso em um contexto mais amplo: “É claro que é uma questão de total dominação masculina em todas as posições poderosas, que está acontecendo desde sempre”.

A questão da autoconfiança
Isso nos leva a um grande tema, recorrente em todas as conversas que tive, para colocar essa peça em conjunto: a questão da confiança, ou melhor, a falta dela nas mulheres. É uma observação comum entre meus entrevistados que as mulheres estão presentes em papéis de produção, mas não em funções de diretoria nem em papéis técnicos. Kitty Turley, produtora executiva da Strange Beast, afirma isso, explicando que, em um típico estúdio de animação, “os homens são os líderes criativos e as mulheres são as animadoras ou produtoras de equipes de trabalho. As mulheres estão lá para facilitar e possibilitar a voz criativa e a visão dos homens”, diz ela, “porque a insegurança é a arma mais poderosa do patriarcado”. À medida que as mulheres passam da educação para a carreira, Kitty diz que as jovens têm “suas qualidades mais femininas elogiadas – a disposição para agradar. É um padrão restritivo que sustenta o status quo”. A Strange Beast é a única produtora de animação em Londres com uma lista de diretores divididos por gênero, e Kitty acredita que uma mudança mais ampla está no horizonte. “Agora, parece que o discurso mudou para um lugar mais polarizado; a sociedade está enfrentando formas sutis, mas igualmente destrutivas, de misoginia e interseccionalidade. Fazemos um esforço conjunto para trabalhar com talentos femininos, apoiando-as a desenvolver sua voz única e a reforçar seus egos”.

Sobre liderar uma equipe
Em uma entrevista no podcast do Lecture in Progress (Creative Lives) Anna Ginsburg diz que sua criação por uma “mãe corajosa, uma mãe solteira, lésbica, feminista militante e advogada”, deu a ela a confiança que ela sente ser necessária para seguir o trabalho de
diretor. “Quase todos os produtores com quem trabalhei são mulheres e quase todos os diretores são homens. E não é exagero”. Continua ela, “Como diretora mulher, em gravações live-action, quando a ordem do dia é lida e eles dizem: ‘Esta é Anna, a diretora’, há um momento de reação [da equipe], porque sou uma mulher jovem. Você está sempre começando com o pé de trás, e você não é você mesmo. Você quer ser mais macho, falar mais alto ou mais baixo e ter certeza de que não está “estridente”. Você começa a se comportar de maneira a perder sua energia porque está tentando ser algo que não é”. Niki compartilha uma visão semelhante sobre comportamentos sociais incorporados, explicando que o papel tradicional de um diretor requer “ser extremamente teimoso em suas escolhas artísticas e sentir-se confortável em ter uma equipe trabalhando unicamente para
realizar sua visão. Isso é diretamente contrário a como a maioria das mulheres foi criada.

[Como mulher] você deve cuidar das pessoas e não se tornar difícil. Eu acho que o principal problema é a falta de fé em nós mesmos, que vem de séculos de opressão das mulheres em geral”. A boa notícia, parece, é que quando você coloca o pé na porta, as experiências são geralmente mais positivas. “Eu nunca me senti questionada como mulher na minha posição atual”, diz Niki. “Para mim, o grande desafio é incentivar as mulheres a alcançar essa posição em primeiro lugar.” Da mesma forma, Nina Gantz diz: “Eu sempre senti que, nas reuniões, as pessoas me ouviram e me colocaram no mesmo nível de qualquer outro diretor na sala”.

Tipos de papéis para as mulheres
Outra questão, que também se origina da educação, são os tipos de papéis disponíveis na indústria. Rosanna Morley, coordenadora criativa da Blinkink, diz que papéis técnicos (como compositores, artistas de FX e generalistas) são extremamente dominados pelos homens, e, que o desequilíbrio, pode ser atribuído à forma como nós, como sociedade, temos historicamente empurrado meninas e meninos para diferentes preferências. “Isso remonta a uma época em que os meninos eram encorajados a gostar de coisas como tecnologia e futebol, e as garotas à arte e ao balé. Essas expectativas projetadas possivelmente alimentaram interesses posteriores e escolhas de carreira.

Hoje, os papéis e expectativas de gênero estão se tornando mais fluidos, o que é uma mudança importante”. Em contrapartida, Rosanna acredita que os avanços tecnológicos e as mídias sociais tornaram a animação mais acessível. “Coisas como Instagram, Vimeo e a popularidade de criar gifs rápidos incentivaram as pessoas a adicionar algum movimento ao seu trabalho. Os ilustradores se interessam por animação 2D (Cécile Dormeau é um ótimo exemplo) e os fotógrafos se envolvem em stop motion. Isso começou a abrir a animação para um grupo maior de pessoas”.

Falando sobre a divisão de gênero em animação 3D, Natalie Busuttil, gerente de estúdio da Nexus, acredita que “há uma ideia sobre o que envolve ser um artista 3D de sucesso, que nos leva a pensar em filmes de ação e super-heróis. Para algumas mulheres, isso é ótimo, mas não é o arroz com feijão de todas. Acho que podemos fazer mais para quebrar essa percepção. A animação é um mundo variado e multifacetado – você não precisa trabalhar com monstros e alienígenas fotorrealistas ou no último filme de ação de super-herói para ser um artista 3D”.

A representatividade das Mulheres
Isto toca em um fator importante: a representatividade das mulheres refletida nos próprios filmes. “Por muito tempo, uma visão de mundo dominada por homens foi compartilhada através do cinema, que se tornou a norma”, diz Niki. “É tão importante entrar nas mentes
das mulheres, compartilhar nossas experiências e visões de mundo”. Nina Gantz concorda:
“Uma mulher pode ter uma visão diferente”. Milana Karaica, fundadora do estúdio de animação Nerd Productions, fala sobre o impacto de ter mulheres na mídia. “Crescendo, eu raramente me via refletida na mídia, da indústria de animação ou indústrias de tecnologia ou
propaganda, por exemplo. Desde jovem, você sente que não pode ser como seus colegas do sexo masculino, e talvez você resolva e deseje algo que considere mais viável. Este tópico se tornou um grande debate no estúdio [Nerd tem 50% de mulheres seniores] e a maioria dos artistas concordou que eles nunca trabalharam com uma diretora feminina, alguns em mais de 20 anos. Como criativos, temos que adotar a mudança e a diversidade. Mas isso realmente precisa se originar do topo”.

Então… o que o mercado está fazendo sobre isso?
Teal Triggs, diretora associada da escola de comunicação da Royal College of Art e atual chefe de animação, é uma ativista para as questões de gênero que a indústria de animação enfrenta, e nos diz que a animação, como muitas indústrias criativas, enfrenta desafios arraigados em igualdade de gênero e representação. As mulheres são maioria nos cursos de animação, mas o oposto é verdadeiro na indústria, e as razões para isso “são históricas e geralmente refletem circunstâncias pessoais, mas também sugerem uma necessidade urgente de rever as práticas atuais do setor”, diz ela. “Por exemplo, em examinar as práticas de entrevistas de emprego, em termos de predisposições, preconceitos e inclinações; introduzir mentorias robustas para orientação nos cursos; e aumentar a conscientização sobre gênero e diversidade no julgamento para premiações e festivais. Como educadores, precisamos trabalhar em conjunto com a indústria de animação para garantir que as mulheres tenham oportunidades iguais de levar suas vozes, experiências e práticas únicas à animação e às indústrias criativas”.

Niki Lindroth von Bahr tem visto grandes mudanças nos últimos anos, com a indústria se tornando mais consciente do problema e agindo. Isso significa mais filmes de mulheres diretoras sendo incluídos em festivais, mais membros femininos na composição dos júris e algumas estrelas como Réka Bucsi e Kirsten Lepore, sendo reconhecidas, “mostrando o caminho para outras garotas”, diz ela. Anna Ginsburg ecoa que as mulheres em cargos de poder possuem um papel fundamental na representatividade das mulheres na indústria. “Eu trabalhei para o Moth Collective [no início da minha carreira] e tenho muito a agradecer, especialmente Margaux [Tsakiri-Scanatovits] como uma mulher maravilhosa na indústria. Eles me mostraram que você não precisa ser cruel para ser uma pessoa de sucesso”.

Natalie Busuttil diz que, há alguns anos, você pode ter visto apenas uma ou duas mulheres em um estúdio de animação de 40 artistas, e hoje ela vê “um aumento acentuado” nessa proporção. “Especialmente em design de personagens, arte conceitual e animação 2D, as mulheres às vezes superam os homens em muitas escolas que eu visitei, e isso está sendo refletido no trabalho que vem dessas escolas, onde sexualidade e gênero são assuntos que estão sendo explorados com mais frequência do que eu vi antes. “Um exemplo que ela dá é Bacchus, um filme dirigido por um grupo de alunas do The Animation Workshop em Viborg, Dinamarca, sobre a jornada pessoal de auto-descoberta de uma mulher, que é aclamada internacionalmente. Rosanna Morley, da Blinkink, diz que o estúdio encoraja ativamente escolas e faculdades a visitarem e administram um esquema de experiência de trabalho. Isso, diz ela, “visa desnudar à animadores do sexo feminino o caminho para uma carreira de animação”. A Passion Pictures e a Strange Beast continuam assinando 50% de diretores do sexo feminino e pretendem ter equipes de gênero equilibradas onde for possível, enquanto também trabalham com a Creative Mentor Network para conectar mulheres jovens com a indústria. “Realizadoras, diretoras comerciais, do sexo feminino, são uma mercadoria rara que estamos procurando”, diz a coordenadora de projetos Debbie Crosscup da Passion. “Precisamos nos esforçar para criar um ambiente onde a animação e a produção sejam uma carreira válida para qualquer um. As pessoas [na indústria] estão definitivamente mais conscientes de que não há diversidade suficiente. As empresas estão prestando muita atenção às contratações, para ter uma gama mais ampla de talentos de todas as esferas da vida. Para nós, criativos, uma equipe diversificada nos ajuda como contadores de histórias.

Nós nos tornaremos uma empresa mais completa se pudermos contar autenticamente qualquer história que bata na nossa porta”. Kitty Turley também comenta que iniciativas como WIA, Animated Women e Free the Bid, estão lançando luz sobre o assunto, que só podemos esperar nova onda de mulheres para o mundo da animação.

Links
Strange Beast
Passion Pictures
Nina Gantz
Anna Ginsburg
Podcast with Anna Ginsburg
Niki Lindroth von Bahr
Blinkink
Nexus Studio
Nerd Production
Cécile Dormeau
RCA School of Communication
Réka Bucsi
Kirsten Lepore
Marie-Margaux Tsakiri-Scanatovits
Bacchus from The Animation Workshop in Viborg, Denmark
WIA / Women in Animation
Animated Women
Free the Bid

Imagem
Anna Ginsburg
Fonte It’s Nice That

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